Cartografias

Março 6, 2008

Quero morrer no deserto. Não quero morrer aqui no Príncipe Real debaixo do sol escaldante de Agosto. Não sei como é que isto aconteceu. Sinto-me como os gatos. Quando me tocas apetece-me percorrer a tua mão com o meu corpo. Estou-me a apaixonar pela pessoa errada. Eras igual a A ou a B. mas deixas-te de o ser. Uma destas noites olhei para ti como se nunca te tivesse visto e descobri que me podes seduzir, e que eu não sou imune a essa sedução. Os afectos são coisa terríveis. Apetece-me fazer com que a parte de dentro do meu polegar deslize sobre a tua pele. Apetece-me fazer amor contigo. Apetece-me que estejas aqui. E principalmente apetecia-me que não ocupasses tanto espaço dentro de mim. Dou por mim a sentir a textura do botão que regula o som da minha aparelhagem e toco-lhe da mesma maneira que te toco a ti, na nuca, nos cabelos, onde calha. É como se a ponta dos meus dedos precisassem da tua pele para se realizarem, e procurassem mesmo em botões de aparelhagem inóquos e cinzentos, estar na tua companhia.

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X Night

Março 5, 2008

O dia lá fora transforma-se em noite. Gravo discos. Estou triste. Grava esta, é mesmo boa – dizes-me. Não estejas triste. Não me olhes dessa maneira – dizes-me. As pessoas vão chegando. O jantar vai sendo servido. Eu vou-me divertindo. Os outros vão-se divertindo também. Os “sushi” estão divinos. Repetem-se. Uma, duas, três vezes. Duas pessoas snifam mostarda verde e espirram. Nós, os outros, rimo-nos. Eu também. As coisas acontecem à velocidade da luz. E porque é que hoje que já se passaram tantos meses que parecem anos, me estou a lembrar disto? O desejo é como um rio. E eu flutuava nele nessa tarde. O desejo de possuir e ser possuida. O desejo, essa impossibilidade de desistir, de estar constantemente a deslizar virtualmente pelo corpo da outra pessoa. De analisar cada detalhe do corpo à nossa frente detendo-nos apenas nos sítios que por alguma razão elegemos como estações de serviço. Queremos ser reabastecidos. Ateste por favor. E às vezes não é possivel, e às vezes estão fechados e nessa tarde eram essas e tantas outras coisas juntas. Tu a vestires as calças de ganga e eu a analisar a maneira como as tuas pernas e o teu rabo se adaptavam ao tecido, às pregas, aos bolsos. Os discos foram gravados, o jantar acabou. Lavou-se a loiça, ou talvez não. Não me lembro. Eu a reparar em ti, e a chuva lá fora a bater nos vidros da sala. Fomos à varanda. Monhámo-nos. Eu mais do que tu. Eu um bocado à toa e tu a chamares-me do chão. Eu de joelhos e tu também. Eu a beijar-te e tu a deixares-te ir pelo que já tinhas bebido, pela chuva, pela atmosfera, pelo desejo, pela noite que começara comigo triste e que agora me deixava com um misto de excitação e de dor. Porque ter-te era ter-te de raspão, era ter-te enquanto não chegava ninguém. As minhas mãos no teu corpo e tu a dizeres-me para ter cuidado, para estar com atenção, para escutar dentro da minha habitual sobriedade os passos que se dirigiam para o sítio onde estávamos, porque tu estavas com as tuas capacidades alteradas. Tu que nunca te alteravas. Acabámos por voltar para a festa, para os outros, para a impossibilidade de estarmos como se não se tivesse passado nada, tu e eu no sofá, a minha mão nas tuas pernas como se fosse por acaso, as tuas pernas em cima das minhas como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se fizessemos aquilo todos os dias, como se a pessoa com quem vivias não estivesse na sala. Como se tu e eu pudessemos ética e moralmente permitirmo-nos, tu ser infiel, eu cometer uma traição, e mesmo assim sabendo que já não havia muito a fazer. Que aos poucos e poucos nos tinhamos apaixonado. Acabei por sair. Tu ainda me pedis-te: Dorme cá. Não fiquei. Esta seria sem dúvida a noite X, mas não foi.