Impossibilidades

Março 6, 2008

O António é que tem razão. Não tenho emenda. É como se fosse uma fatalidade, uma atracção pelo abismo. Sim, porque são sempre impossibilidades. Mesmo quando acontecem, mesmo quando se concretizam, mesmo quando me tento iludir a mim mesmo dizendo: agora é que é, nunca é. Nunca é, porque há um lado em mim que entre duas ou três possibilidades escolhe sempre a menos indicada, diria mesmo a menos plausível, aquela que vai fazer com que os meus amigos comentem irónicamente: – Mas este tipo tem cá um jeito para este tipo de coisas. Ou então. – Mais uma. Fatal como o destino, não acham? E provávelmente riem-se todos imenso e não querem acreditar no que estão a ver. Mesmo eu tenho as minhas dúvidas. Mesmo o meu terapeuta tem as suas dúvidas. A minha mãe então nem se fala. Está-me sempre a dizer: – Ai Jorge. É cada uma pior do que a outra. Tudo muito boas moças, mas não me parece que o vosso encontro tenha sido criado no céu. E eu claro, fico calado, que também é o melhor que tenho a fazer numa situação destas, e acabo encostado à parede da cozinha a dizer: – A mãe não ajuda nada. Mas ela é que tem razão. Sou um despistado amoroso. Conduzo depressa, e mal pelos vistos. Em vez de seguir pela estrada principal como toda a gente, transformo-me numa espécie de “kamikaze” de trazer por casa e vou sempre à procura da irreprimível beleza das estradas secundárias. Cada uma mais maravilhosa do que a outra – diga-se de passagem – mas todas elas de evitar. São chatas e ficam sempre aquém daquilo que prometiam na primeira curva. Aliás, se eu quiser ser mesmo honesto comigo mesmo nunca se passa nada na primeira curva. Eu é que acho que se passa. E penso invariávelmente para mim próprio : – Ai que linda curva. E a coitada da curva nem para alí foi chamada. E a coitada da curva continua onde está, muda e queda como se costuma dizer, e se não fosse eu ter reparado nela, não passava mesmo de uma banalíssima curva como há outras tantas espalhadas por aí.
Quando dou por mim, já me transformei numa espécie de sucursal das linhas aéreas mais próximas e encaminho-me a passos largos para mais uma tentativa de convencer A, B ou C, de que o meu mundo é mais interessante do que o delas, e que se for esse o caso, lhes posso oferecer um bilhete de ida e volta para esse mesmo mundo. A volta está muito bem, a ida é que é mais difícil. O meu pequeno mundo não lhes interessa absolutamente nada. É como tentar plantar couves no deserto. Nem o deserto está preparado para tal eventualidade, nem as couves se excitam por aí além com a ideia de serem levadas para um clima que lhes é adverso e que só muito esporádicamente lhes proporciona aquilo de que necessitam. E apesar de todos estes contratempos e de todas estas contrariedades, eu continuo a insistir no plantio de uma nova variedade de couves. As couves do deserto. Que são aquelas, como o nome indica, que se desenvolvem em todo o seu esplendor nos terrenos menos adequados à sua condição de couves. Não há aliás registo de que alguma delas tenha sobrevivido ao transplante e as que conseguiram realizar semelhante proeza mudaram rápidamente de clima, antes de se transformarem noutra espécie – essa totalmente adequada ao meio ambiente – ou seja, em cactos. Sim, porque geralmente não são as couves da minha aldeia – e quem diz aldeia, diz mundo, e quem diz couves, diz outro vegetal qualquer – que me seduzem. São sempre as couves de um mundo paralelo ao meu aquelas que vá-se lá saber porque, me provocam ansias e estados de alma elevadíssimos.
Olho para elas e uma mistura de desejo e de ternura instalam-se dentro de mim, obrigando-me a cometer actos que de outro modo seriam impensáveis. Empresto-lhes livros e discos. Falo com elas de coisas transcendentais como se estivesse a conversar com o António ou com o meu primo Filipe que quer ir para filosofia. Tudo um erro. Mas enquanto me arrasto de subúrbio para subúrbio, e de sogra para sogra, vou elaborando a teoria de que nem as magníficas pernas da Madalena, nem a beleza um pouco provinciana da Renata me preenchem totalmente. Quanto muito obrigam-me a andar “a monte” durante dois ou três meses – que é geralmente o tempo que duram estes meus devaneios – de maneira a não ser apanhado em flagrante por nenhum dos meus amigos, que embora já saibam o que é que a casa gasta, ficam sempre muito mal impressionados com as minhas escolhas amorosas. – Mas o que é que tu vês nelas? – perguntam eles incrédulos coma a aparência mal acabada da minha ultima aquisição. E eu tento responder-lhes de uma maneira educada, mas só a muito custo é que não saio porta fora, furioso com o guarda roupa escolhido pela Anabela ou pela Marisa, e ainda mais furioso comigo mesmo e com a minha crença infântil de que é possivel transformar monstros em belas. Os monstros geralmente já possuem um estilo, conhecido como “estílo próprio”, que é completamente imune à mudança e que só pessoas como eu ainda imaginam ser possivel transformar noutra coisa, que não o modelo original. O que eu queria era uma espécie de compromisso entre os sapatos que lhes ofereci na primeira semana de namoro e as roupinhas que elas próprias adquirem nos saldos. Alquimias, I guess…