04

Março 27, 2008

Grace under pressure.

Ernest Hemingway
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03

Março 24, 2008

Podes ser tão artístico quanto quiseres
desde que não sejas apanhado.

Dor de corno

Março 24, 2008

Chegou atrasado, ao fim da noite.
Não viu o concerto. Claro. Pudera.
Deve ter estado com a outra em cima das slotmachines
até lhes sair o jackpot. Pelo andar da coisa ainda lá devem estar…

Sexy

Março 8, 2008

Sexy, sexy, sexy. Foi o que ele pensou quando a viu. Sexy quando sorriu. Sexy quando fechou a porta. Quando dobrou a esquina. Sexy mesmo nas alturas em que não gostou do que viu. S E X Y, escrevia ele, enquanto tratava dos assuntos da escola. S E X Y, pensava ele enquanto olhava para o outro lado da sala e encontrava as pernas mais… Mais o quê? Não podia usar outra vez a mesma palavra. Tinha de ser criativo. Desviava o olhar. Procurava a palavra certa. Perdia-se de novo nas pernas, nas mãos, na maneira como ela olhava para ele, e continuava a pensar: sexy, sexy, sexy.

Soft Doing

Março 7, 2008

Sentia-se assombrada pela maldição do “soft doing”. A longa lista de pessoas “soft doing” que tinham aparecido na sua vida era quase interminável. Tinha havido C, e depois disso V, e antes delas, todas as outras Xs e Ys com quem se cruzara e das quais já nem se lembrava do nome, nem das circunstâncias, mas que tinham lá estado para lhe assombrarem a vida. Queria ser como elas. Invejava-lhes a harmonia e a beleza. A suave maneira de estar e falar. Os atributos etéreos que as rodeavam e que por alguma razão obscura elegera como patamar a atingir, levaram-na durante muito tempo a querer experimentar um fato que lhe ficava curto nas mangas, largo nas costas. Obviamente, acabou por desistir.

Ingénua y Lenta

Março 7, 2008

O papel de “coitadinha” assentava-lhe que nem uma luva. Eram os olhos em alvo, as mãos nos bolsos, os pés metidos para dentro – e apetece acrescentar – as orelhas descaídas. Parecia um cão sem dono. Por estas e por outras sentia-se permanentemente à beira das lágrimas e principalmente à beira de se atirar para baixo do primeiro carro que lhe aparece-se à frente. Resumindo. Depois de muitos anos a inventar emoções, tinha-se apaixonado por alguém que aparentemente preenchia todos os seus requisitos. Foi demais. Num dia estava afectivamente em branco, no outro era alegremente seduzida e entrava directamente para o top 10 das emoções à flor da pele. Claro está que não aguentou. Paz à sua alma.

Trovas

Março 7, 2008

Debaixo de uma árvore grande um trovador gordo toca banjo de uma forma extremamente profunda. Tenta conquistar a bela D. Maria Cerveira Pouquinho que além de casada é surda.

Um pátio

Março 7, 2008

O portão está fechado. Pintado de um rosa desmaiado, esconde uma maneira de viver que tem pouco a ver com os nossos dias. O centro deste mundo é o pátio. Alpendres, vasos, portas com fitas de plástico, tanques, cães, pássaros, e alguns objectos não identificados, preenchem o espaço disponível. À porta de uma das casas uma mulher com perto de sessenta anos alimenta um pássaro numa gaiola azul. Vive com a mãe nesta casa pintada de branco, e só o pássaro a acompanha na melopeia triste e sem sentido com que atravessa o dia.

Impossibilidades

Março 6, 2008

O António é que tem razão. Não tenho emenda. É como se fosse uma fatalidade, uma atracção pelo abismo. Sim, porque são sempre impossibilidades. Mesmo quando acontecem, mesmo quando se concretizam, mesmo quando me tento iludir a mim mesmo dizendo: agora é que é, nunca é. Nunca é, porque há um lado em mim que entre duas ou três possibilidades escolhe sempre a menos indicada, diria mesmo a menos plausível, aquela que vai fazer com que os meus amigos comentem irónicamente: – Mas este tipo tem cá um jeito para este tipo de coisas. Ou então. – Mais uma. Fatal como o destino, não acham? E provávelmente riem-se todos imenso e não querem acreditar no que estão a ver. Mesmo eu tenho as minhas dúvidas. Mesmo o meu terapeuta tem as suas dúvidas. A minha mãe então nem se fala. Está-me sempre a dizer: – Ai Jorge. É cada uma pior do que a outra. Tudo muito boas moças, mas não me parece que o vosso encontro tenha sido criado no céu. E eu claro, fico calado, que também é o melhor que tenho a fazer numa situação destas, e acabo encostado à parede da cozinha a dizer: – A mãe não ajuda nada. Mas ela é que tem razão. Sou um despistado amoroso. Conduzo depressa, e mal pelos vistos. Em vez de seguir pela estrada principal como toda a gente, transformo-me numa espécie de “kamikaze” de trazer por casa e vou sempre à procura da irreprimível beleza das estradas secundárias. Cada uma mais maravilhosa do que a outra – diga-se de passagem – mas todas elas de evitar. São chatas e ficam sempre aquém daquilo que prometiam na primeira curva. Aliás, se eu quiser ser mesmo honesto comigo mesmo nunca se passa nada na primeira curva. Eu é que acho que se passa. E penso invariávelmente para mim próprio : – Ai que linda curva. E a coitada da curva nem para alí foi chamada. E a coitada da curva continua onde está, muda e queda como se costuma dizer, e se não fosse eu ter reparado nela, não passava mesmo de uma banalíssima curva como há outras tantas espalhadas por aí.
Quando dou por mim, já me transformei numa espécie de sucursal das linhas aéreas mais próximas e encaminho-me a passos largos para mais uma tentativa de convencer A, B ou C, de que o meu mundo é mais interessante do que o delas, e que se for esse o caso, lhes posso oferecer um bilhete de ida e volta para esse mesmo mundo. A volta está muito bem, a ida é que é mais difícil. O meu pequeno mundo não lhes interessa absolutamente nada. É como tentar plantar couves no deserto. Nem o deserto está preparado para tal eventualidade, nem as couves se excitam por aí além com a ideia de serem levadas para um clima que lhes é adverso e que só muito esporádicamente lhes proporciona aquilo de que necessitam. E apesar de todos estes contratempos e de todas estas contrariedades, eu continuo a insistir no plantio de uma nova variedade de couves. As couves do deserto. Que são aquelas, como o nome indica, que se desenvolvem em todo o seu esplendor nos terrenos menos adequados à sua condição de couves. Não há aliás registo de que alguma delas tenha sobrevivido ao transplante e as que conseguiram realizar semelhante proeza mudaram rápidamente de clima, antes de se transformarem noutra espécie – essa totalmente adequada ao meio ambiente – ou seja, em cactos. Sim, porque geralmente não são as couves da minha aldeia – e quem diz aldeia, diz mundo, e quem diz couves, diz outro vegetal qualquer – que me seduzem. São sempre as couves de um mundo paralelo ao meu aquelas que vá-se lá saber porque, me provocam ansias e estados de alma elevadíssimos.
Olho para elas e uma mistura de desejo e de ternura instalam-se dentro de mim, obrigando-me a cometer actos que de outro modo seriam impensáveis. Empresto-lhes livros e discos. Falo com elas de coisas transcendentais como se estivesse a conversar com o António ou com o meu primo Filipe que quer ir para filosofia. Tudo um erro. Mas enquanto me arrasto de subúrbio para subúrbio, e de sogra para sogra, vou elaborando a teoria de que nem as magníficas pernas da Madalena, nem a beleza um pouco provinciana da Renata me preenchem totalmente. Quanto muito obrigam-me a andar “a monte” durante dois ou três meses – que é geralmente o tempo que duram estes meus devaneios – de maneira a não ser apanhado em flagrante por nenhum dos meus amigos, que embora já saibam o que é que a casa gasta, ficam sempre muito mal impressionados com as minhas escolhas amorosas. – Mas o que é que tu vês nelas? – perguntam eles incrédulos coma a aparência mal acabada da minha ultima aquisição. E eu tento responder-lhes de uma maneira educada, mas só a muito custo é que não saio porta fora, furioso com o guarda roupa escolhido pela Anabela ou pela Marisa, e ainda mais furioso comigo mesmo e com a minha crença infântil de que é possivel transformar monstros em belas. Os monstros geralmente já possuem um estilo, conhecido como “estílo próprio”, que é completamente imune à mudança e que só pessoas como eu ainda imaginam ser possivel transformar noutra coisa, que não o modelo original. O que eu queria era uma espécie de compromisso entre os sapatos que lhes ofereci na primeira semana de namoro e as roupinhas que elas próprias adquirem nos saldos. Alquimias, I guess…

Cartografias

Março 6, 2008

Quero morrer no deserto. Não quero morrer aqui no Príncipe Real debaixo do sol escaldante de Agosto. Não sei como é que isto aconteceu. Sinto-me como os gatos. Quando me tocas apetece-me percorrer a tua mão com o meu corpo. Estou-me a apaixonar pela pessoa errada. Eras igual a A ou a B. mas deixas-te de o ser. Uma destas noites olhei para ti como se nunca te tivesse visto e descobri que me podes seduzir, e que eu não sou imune a essa sedução. Os afectos são coisa terríveis. Apetece-me fazer com que a parte de dentro do meu polegar deslize sobre a tua pele. Apetece-me fazer amor contigo. Apetece-me que estejas aqui. E principalmente apetecia-me que não ocupasses tanto espaço dentro de mim. Dou por mim a sentir a textura do botão que regula o som da minha aparelhagem e toco-lhe da mesma maneira que te toco a ti, na nuca, nos cabelos, onde calha. É como se a ponta dos meus dedos precisassem da tua pele para se realizarem, e procurassem mesmo em botões de aparelhagem inóquos e cinzentos, estar na tua companhia.