Um pátio

Março 7, 2008

O portão está fechado. Pintado de um rosa desmaiado, esconde uma maneira de viver que tem pouco a ver com os nossos dias. O centro deste mundo é o pátio. Alpendres, vasos, portas com fitas de plástico, tanques, cães, pássaros, e alguns objectos não identificados, preenchem o espaço disponível. À porta de uma das casas uma mulher com perto de sessenta anos alimenta um pássaro numa gaiola azul. Vive com a mãe nesta casa pintada de branco, e só o pássaro a acompanha na melopeia triste e sem sentido com que atravessa o dia.

Sobre sapatos

Março 6, 2008

Comprei uns Hush Puppies azuis. Havia na loja uma mulher com uns amarelos já muito batidos que eram fantásticos. Tinha quarenta e tal anos e uma mochila onde pendurara a camisola. Disse-me que os dela, os amarelos, já tinham um ano e eram fantásticos. Disse-me também, que só porque socialmente os sapatos não se podiam usar naquele estado é que ia comprar uns novos. Que os antigos tinham mais personalidade e que gostava da maneira como os dedos dos pés os tinham marcado. Calçava o 36 e podia-se dizer que tinha uns pés queridos. A mim que calço o 39 nunca ninguém me vai dizer isso. A vida não é justa.

Via de costas. Era uma mulher extremamente bonita. Alta, elegante, a roupa caia-lhe bem. Calças brancas e um mapa na mão. Não lhe conseguia ver a cara, mas tudo indicava ser uma mulher interessante. Olhava em volta como se procura-se alguma coisa, ou tão só como se passeasse sem um objectivo defenido.
Acabei por me cruzar com ela. Com dois pêssegos na mão olhei-a interrogativamente. Ela também olhou para mim enquanto dizia olá. Não precisava de nenhuma informação, nem estava perdida. Era realmente simpática. Disse-me que se limitava a passear por Lisboa, mapa na mão e o ar de quem vai um pouco à deriva, sem rumo fixo.
Parecia estrangeira, mas falava bem português. Imagino, não sei bem porque, que fosse italiana, mas não tenho a certeza. Fez-me ficar a pensar na facilidade com que disse olá, francamente, sem desconfianças. Há pessoas realmente equilibradas. Por dentro e por fora.

Comboio Cascais-Lisboa

Março 6, 2008

Uma mulher branca quatro bancos à minha frente parece estar fascinada pelo homem negro com quem conversa. A maneira como olha para os olhos dele, para a boca, para as sobrancelhas, para as mãos, não é um olhar casual. É como se lhe tocasse. O seu olhar segue de uma maneira tão insistente os contornos das suas feições que eu acabo por reparar nela. Aparentemente está calma. A sua postura física é bastante relaxada e nada nela – além do olhar – demonstra interesse. E é esse olhar que me leva a querer saber como é que ele é. Se é bonito, se se veste bem, se tem alguma cracterística física que o torne excepcional. Mas nada disso acontece. Para mim é um homem igual a tantos outros. Não há nada nele que me desperte a atenção. Só o modo como a mulher de gabardine cinzenta o olhava.