Dor de corno

Março 24, 2008

Chegou atrasado, ao fim da noite.
Não viu o concerto. Claro. Pudera.
Deve ter estado com a outra em cima das slotmachines
até lhes sair o jackpot. Pelo andar da coisa ainda lá devem estar…

Sexy

Março 8, 2008

Sexy, sexy, sexy. Foi o que ele pensou quando a viu. Sexy quando sorriu. Sexy quando fechou a porta. Quando dobrou a esquina. Sexy mesmo nas alturas em que não gostou do que viu. S E X Y, escrevia ele, enquanto tratava dos assuntos da escola. S E X Y, pensava ele enquanto olhava para o outro lado da sala e encontrava as pernas mais… Mais o quê? Não podia usar outra vez a mesma palavra. Tinha de ser criativo. Desviava o olhar. Procurava a palavra certa. Perdia-se de novo nas pernas, nas mãos, na maneira como ela olhava para ele, e continuava a pensar: sexy, sexy, sexy.

Five o’clock tea

Março 6, 2008

O António Meireles e o Bernardo T. tomam chá numa daquelas pastelarias agradáveis que existem na Lapa. Estão rodeados de gente como eles próprios. Sapatos com um berloque em forma de vassourinha, calças cremes, e embora pareça mentira, camisas às riscas. Boas marcas e cremes faciais em dia. As famílias vêm a apurar a raça à várias gerações. Não há nada a fazer. Nós os comuns mortais nunca teremos o mesmo ar cuidado que eles ostentam. Por muito que façamos, por muito que nos tratemos todos por você, nunca vamos atingir a “performance” desta gente.
O chá servido por um empregado fardado a rigor, que por acaso é simpático, e que também por acaso não é para aqui chamado, e o ambiente copiado de uma daquelas revistas caras que se encontram nos antiquários fazem-nos sentir em casa. O Bernardo sempre se sentiu bem em sítios como este. São quase iguais à sua própria sala de estar. O António é um bocadinho diferente, às vezes gosta de frequentar outro tipo de circuitos.
Entre um croissant barrado com doce de morango, e os dedos que são judiciosamente limpos no guardanapo de papel, o António começou a falar sobre uma amiga que conheceu em Maio.
- Ontem à noite queria tanto sonhar com a Rita – diz ele enquanto afasta o lenço do pesoço – Estaria lindissima. Sapatos pretos e aquelas pernas que tu bem sabes.
- E que tal correu? – perguntou o Bernardo, que já reparara nas olheiras do amigo.
- Horrível – e sentia-se que não estava à vontade. – Esta Rita é uma obcessão. Custou-me imenso adormecer. E nem mesmo o livrinho de poesia erótica que me ajuda tanto nestas crises, fez com que sonhasse com ela. Estou de rastos.