Do passado veem dias
Março 6, 2008
Não se percebe se é a falta de dinheiro, ou uma acomodação às coisas como elas são. Um deixa andar – morta a vontade de mudar – de onde se desprende uma modorra que nos empurra para o sono eterno. Adormece-se nestas casas. Definha-se. O tempo, esse, parece que parou. Os móveis vão-se degradando e o papel das paredes perdendo a côr. Ninguém sabe como é que as coisas chegaram a este ponto. Uma peça ou outra ao acaso, sobressai. Design “anos cinquenta”. O resto são linóleos remendados, e sofás tapados com panos.
Acabamos fatalmente por descobrir que se não mudarmos rapidamente de ambiente, acabaremos fatalmente transformados em gigantescos caracóis que se hão-de arrastar escadas abaixo até atingirem o patamar redentor da rua que lhes devolverá a forma humana. Ámen, agradecemos então.
O Maestro
Março 5, 2008
O maestro estava encantado com Brahams. Brahams na sua morada final também se mostrava encantado. A orquestra qual amante maleável a todos os seus caprichos, desdobrava-se em brilhantes execuções individuais que empurravam o público nota a nota para a euforia das grandes noites. E este, enorme animal amestrado que sabe exactamente o que se espera dele, aguardava ansiosamente a chegada de cada uma dessas notas sem ousar respirar. Uma insensatez absurda invadia os gestos e imobilizava os olhares.