Emília Hercules
Março 5, 2008
Pertencia a uma sub-espécie especialmente grande e voraz de classificação incerta, que remetia para obscuros livros de zoologia e que na maior parte dos casos passava despercebida a quem se dava ao trabalho de os consultar.
De A a Z organizam-se todos os outros mundos, mas não o delas. Através de métodos que correspondiam em tudo aos seus requintados paladres, distribuiam atentamente nomes e moradas em pequenas folhas, onde com alguma dificuldade se conseguia ler: “Pessoas sobremesa: para saborear lentamente”, “Pessoas Digestivo: para consumir com moderação” e assim sucessivamente, num desfile feérico de folhas mais ou menos requintadas, conforme lhes apetecia mais uma refeição ligeira, ou uma sucessão de pratos cuidadosamente confeccionados, que demoravam tempo a ser consumidos.
Mas a maior parte das pessoas que constavam nessas listas eram apenas isso mesmo, a combinação “gourmet” perfeita. Não eram reais. Não faziam parte da pequena lista de amigos e conhecidos, que esses sim existiam, e por baixo dos quais se podia ler “Consumir pouco de cada vez e nunca em casa”. Os outros, os irremediávelmente irreais, precisavam quase sempre de um texto de apresentação que funcionava muitas vezes como indicativo do estado do tempo. “Abril. Rapaz aprumado na sua camisola verde pistacho que vislumbrei num cinema em dia de chuva e que coloquei imediatamente na secção: “Petiscos: claramente para não abusar.”"